HEGEL E A FILOSOFIA DA ARTE[1]

 

 

 

 

            Pode-se ensinar na universidade uma disciplina que não existe? A questão foi colocada por G.W.F. Hegel desde 1805. A universidade considerada é uma das mais prestigiadas da Alemanha: Heidelberg. Hegel torna-se professor nela em 1816. A disciplina que não existe - por não ser titular de uma cadeira acadêmica - é a estética! Hegel ensina-a, episodicamente, a partir de 1818 apenas, na Universidade de Berlin, depois, de modo contínuo, entre 1827 e 1830.

 

            Não se resume mil e duzentas páginas de um curso de estética, reconstituído de maneira bastante fiel a partir das notas dos estudantes. Mais vale, aqui, sublinhar as principais linhas dessa empresa monumental. Precisemos, de início, em que a estética de Hegel difere completamente da estética kantiana.

 

            Ao contrário do filósofo de Königsberg, Hegel confessa uma verdadeira paixão pelas artes. No seminário protestante de Tübingen (1788 - 1793), onde faz amizade com Hölderlin e Schelling, lê os trágicos gregos, Shakespeare e os poetas alemães contemporâneos, Schiller e Goethe. Em Heidelberg e, depois, em Berlim, freqüenta teatros e concertos, visita exposições, admira Bach, Haendel, Gluck, Mozart, Rossini. Crítico, mostra-se severo, até mesmo injusto, com os pintores e músicos contemporâneos: nenhuma palavra sobre eles       Beethoven, nem sobre Caspar Rauch Friedrich. Ignora o escultor Christian Rauch e a escola de Berlim. Rietschel, autor das estátuas de Gluck, Mozart, Goethe e Schiller, não é nem mencionado. Estranha indiferença pela arte do presente que contrasta com seu interesse pela arte do passado: a pintura holandesa especialmente, Van Eyck, Memling, Rembrandt; os vitrais das catedrais, Colônia, Bruxelas; as cidades, Viena, Paris! Kant sedentário, fascinado pelas belezas da natureza. Hegel nômade na Europa do começo do século XIX, tem olhos apenas para a beleza artística.

 

            Evocou-se anteriormente as reservas de Hegel em relação ao emprego da palavra "estética". Se a usa é por falta de outra melhor e porque o termo, doravante, passou a ser usual. A expressão "filosofia da arte" é, na verdade, mais adequada ao seu propósito.


O BELO: UM "GÊNIO AMISTOSO"

 

            Desde a introdução da Estética, Hegel precisa sua intenção: trata-se de mostrar que a filosofia da arte "forma um anel necessário ao conjunto da filosofia". Não é questão de elaborar uma metafísica qualquer da arte, mas de partir do "reino do belo", do "domínio da arte". E convém incluir essa filosofia do belo ao conjunto do sistema filosófico.

            Do quê fala? Das belezas diversas próprias às diferentes artes, específicas às obras particulares? Mas face a tal diversidade, seria impossível constituir uma ciência tendo alguma validade universal. É preciso, então, partir da Idéia de belo. É dela que se deduz as belezas particulares, e não das belezas particulares que se deduz o conceito. Hegel aprova Aristóteles: há apenas ciência do geral!

            Curiosamente, evoca Platão e cita seu diálogo com Hippias maior: "Deve-se considerar não os objetos particulares, qualificados de belos, mas o Belo." É, todavia, uma das raríssimas concessões ao platônico. Platão não hesitava em criticar a arte e seu caráter ilusório, aparente, cópia medíocre do mundo ideal. Para Hegel também, a arte é aparência, mas essa "aparência" é real. É a manifestação sensível, perceptível do que os homens, os povos, as civilizações conceberam graças ao seu espírito e exprimiram graças à criação de obras de arte concretas. O belo existe aqui e em todo lugar ao redor de nós. Intervêm, diz Hegel, "em todas as circunstâncias da vida" como esse "gênio amistoso que reencontramos em todo lugar".

            E - não é para nos espantarmos - o único belo que o interessa é o belo artístico, o das produções humanas, excluindo-se o belo natural. Por que? Simplesmente porque o belo artístico é sempre superior ao belo da natureza. É uma produção do espírito, e o espírito "sendo superior à natureza, sua superioridade se comunica igualmente aos seus produtos, e por conseqüência, à arte[2]".

            Hegel pode dificilmente ser mais claro do que quando declara: "A pior idéia que atravessa o espírito do homem é melhor e superior que a maior produção da natureza, e isso justamente porque participa do espírito e que o espiritual é superior ao natural[3]."

            Uma das conseqüências dessa superioridade incontestável do espírito é que a arte não poderia ter por objetivo imitar a natureza. Hegel toma aqui radicalmente o contrapé da tradição aristotélica em vigor na arte ocidental.: "Pretendendo que a imitação constitua o objetivo da arte, que a arte consiste, por conseqüência, em uma imitação fiel do que já existe, coloca-se em suma a lembrança na base da produção artística. É privar a arte de sua liberdade, de seu poder de expressar o belo[4]."Ora, o objetivo da arte não é de satisfazer a lembrança, mas de satisfazer a alma, o espírito.

            Basta retroceder no curso do tempo para se perceber que o "gênio amistoso" sempre manteve relações privilegiadas com a religião e com a filosofia. A arte sempre simbolizou, representou, figurou o sentimento religioso do homem ou sua aspiração à sabedoria. É graças aos vestígios artísticos das civilizações e das culturas antigas, às estátuas, aos monumentos, aos mosaicos, etc., que podemos reconstituir o que foram, então, as idéias e as crenças que animavam os homens das épocas anteriores. Se a arte interessa a tal ponto Hegel, é porque expressa a vida do espírito e permite a essa vida ser sentida, percebida graças às obras.

 

 

A IDÉIA DE BELO E O ESPÍRITO ABSOLUTO

 

            Ora, há em Hegel essa inabalável certeza - ou "crença"- de que o próprio espírito humano é uma parcela de um espírito que o ultrapassa: um Espírito absoluto rege o conjunto do pensamento e da atividade humanas e se desdobra no curso da história. Esse Espírito absoluto leva à realização do Verdadeiro e da Liberdade, quaisquer que sejam os obstáculos e as vicissitudes que contrariam a ação dos homens.

            Bem entendido, com um pouco de pragmatismo, seria possível objetar que a história é pródiga em contra-exemplos que desmentem esse "otimismo". A história não é feita de uma sucessão de guerras, de injustiças, de devastações causadas pela loucura dos homens, tantos desastres que conduzem ao aniquilamento total das civilizações mais ricas, consideradas imortais?

            Essa objeção é sem valor. O sistema hegeliano, por sua coerência, supera as contradições, e especialmente os acontecimentos que parecem contrários à realização do espírito objetivo. Não se trata, para ele, de otimismo mas de convicção. A linguagem já e no seu mais alto nível, o Conceito são os signos do Absoluto: o simples fato de que se possa nomear - "dar nome" - ao Espírito, à Idéia, à Alma, à Deus é índice de uma existência que não se pode negar, mesmo podendo me representar esta existência. Dito de outro modo, quaisquer que sejam as contradições no mundo ou no indivíduo, entre o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, a justiça e a injustiça, a forma e a matéria, o sensível e o espiritual, a liberdade e a necessidade, o subjetivo e o objetivo, nada me interdita de pensar que o Espírito chegará a superá-los ou, para falar como Hegel, a ultrapassá-los dialeticamente.

            E quaisquer que sejam as contingências materiais, os acidentes da história, eu lidaria, no fim das contas, com três formas do absoluto: a arte, a religião e a filosofia. Certo, reencontraria essas formas sob aspectos diversos e em estágios de evolução diferentes segundo as culturas, na Índia, no Oriente, no Ociedente, no Egito ou na Grécia antiga, mas sempre as deveria considerar como expressões ou manifestações do Espírito absoluto, índices dessa busca infinita da Liberdade que se confunde com a de Deus.

            Percebe-se melhor, além até da preferência de Hegel pelo belo artístico, o que o separa de Kant. Este último limita o poder da Razão ao conhecimento dos fenômenos. A Razão, o espírito humano não têm acesso às coisas em si, ao Absoluto. Para Hegel, ao contrário, o Espírito, o Absoluto incarnam-se de alguma forma nas próprias coisas. Não há nada na realidade, que não seja, em graus diversos, a manifestação do Espírito absoluto, e nada, por consequência, que o espírito humano, ao menos em teoria, não possa conhecer: tudo o que é real é racional, e acessível à razão. A recíproca também é verdadeira: tudo o que é racional é suscetível de se concretizar na realidade.

            Para Hegel, é claro que a tomada de consciência das manifestações do Espírito absoluto é um processo histórico. Não foi sempre assim: este processo teve um começo, pode, então, ter um fim. Veremos que este ponto tem importância capital para o futuro da estética. A filosofia da história hegeliana afirma que a história tem um sentido, uma significação precisa: a do progresso do Espírito que chega ao conhecimento de si, do que é realmente enquanto Espírito.

            A arte está incluída nesta história: exprime, como a religião e a filosofia, o modo como o espírito chega a superar a oposição ou a contradição entre a matéria e a forma, entre o sensível e o espiritual. É assim a manifestação concreta do Espírito, do Verdadeiro na história da humanidade: "Se se quer designar à arte um objetivo final, só pode ser o de revelar a verdade, de representar de modo concreto e figurado o que se agita na alma humana. Este objetivo é comum entre ela e a história, a religião, etc.[5]"

            Percebe-se claramente, de novo, quanto a Idéia hegeliana do belo difere da Idéia platônica. Para Platão, a idéia do Belo, como a do Verdadeiro e do Bem, é abstrata, a-temporal, a-histórica. Em Hegel, o belo é a própria realidade concreta apreendida no seu desdobramento histórico. Quando esta realidade toma a forma sensível do belo artístico, determina o Ideal do belo artístico. E este Ideal do belo aparece na história de três formas fundamentais: a arte simbólica, a arte clássica e a arte romântica.

 

 

O SISTEMA DAS ARTES

 

            Contentar-nos-emos em lembrar as grandes linhas da classificação das artes proposta por Hegel, insistindo sobretudo nas suas implicações no domínio da filosofia da arte. Se a Estética é de longe sua obra mais acessível, esta classificação e o sistema ao qual chega apresentam algumas dificuldades que não são apenas devidas a um erro de compreensão do leitor.

            Acabamos de precisar que o Ideal do belo designa o modo como a Idéia de belo se realiza historicamente nas formas particulares da arte. Cada uma destas formas corresponde assim a um período determinado da história:

            - arte simbólica: a arte indú sendo, para Hegel, uma forma rudimentar da arte simbólica, o exemplo mais perfeito é a arte egípcia,

            - arte clássica: a arte grega,

            - arte romântica: a arte do Ocidente cristão da Idade Média ao século XIX.

            Cada uma destas artes traduz o modo como a imaginação tenta escapar da natureza, dar forma a um conteúdo. O grau de adequação forma-conteúdo é diferente para cada um. Está ligado à maneira como os homens pensam poder traduzir a religião, suas crenças ou sua fé graças à arte.

            Na arte simbólica, egípcia, a Idéia - o conteúdo - ainda não encontrou sua verdadeira expressão. É prisioneira da natureza exterior e da natureza humana. Trata-se de uma forma "pré-artística" que não se separou da intuição sensível e cujo modo de expressão repousa sobre símbolos enigmáticos. Em relação aos Egípcios, Hegel escreve: "[...] suas obras de arte permanecem misteriosas e mudas, sem eco e imóveis, pois o espírito ainda não encontrou sua encarnação verdadeira e não sabe ainda a língua clara e nítida do espírito[6]."

            Nada de espantoso em que as pirâmides ofereçam desde então - segundo Hegel - o próprio quadro da arte simbólica. A descrição que faz é quase ingênua: "Os subterrâneos são cavados de labirintos, profundas escavações, passagens compridas que exigem meia hora para a travessia, todo um trabalho cuidadoso e terminado[7]." O simbolismo egípcio torna-se total na representação dos deuses - Osíris e Ísis, ou a Esfínge, enigma absoluto - onde se sente bem que o espiritual ainda não atingiu sua plena e completa liberdade.

 

            A arte grega representa, ao contrário, a adequação perfeita da forma e do conteúdo. É nela, diz Hegel, que é preciso "procurar a realização histórica do ideal clássico". Os artistas não cansam de querer figurar de modo simbólico, às vezes enigmático, as aspirações mais ou menos confusas ao divino. Basta-lhes extrair livremente o conteúdo de suas obras nas crendices populares já estabelecidas ou na mitologia. Por exemplo, o escultor Fídias (490-431) emprestou seu Zeus de Homéro". Enquanto que a arte simbólica "balança entre mil formas" a arte grega "determina livremente sua forma" em função da idéia, do conceito, das intenções que animam o artista. A técnica é tão perfeita que controla plenamente a matéria sensível e a dobra às ordens do criador.

 

            Este equilíbrio entre forma e conteúdo é todavia frágil. Hegel explica que, desde o fim do século IV, quando a demagogia sucede à democracia ateniense e que o arrivismo e as intrigas pervertem a cidade, a harmonia entre o natural e o espiritual se degrada. Um abismo se aprofunda entre as antigas aspirações à virtude, o respeito às divindades e a realidade exterior: desde a época de Platão e de Xenófones começa a dissolução da arte clássica antes que renasça, mais tarde, outras aspirações à espiritualidade.

 

            É na arte romântica - a última forma particular de arte - que a espiritualidade atinge seu máximo. A arte romântica é uma arte da interioridade absoluta e da subjetividade consciente de sua autonomia e de sua liberdade. A representação do divino, do "reino de Deus" abandona qualquer referência à natureza, à realidade sensível. A arte clássica grega extraía seu conteúdo dos deuses; a arte romântica encontra-o na história de Cristo, da Redenção, da Virgem, dos discípulos; exprime assim a universalidade no seu mais alto grau.

 

            Esta arte "romântica" - Hegel dá um sentido particular à palavra - cobre o período mais longo da história conhecida, já que parte do começo do cristianismo para culminar na época de Hegel, àquela em que a significação filosófica ultrapassa o conflito entre forma e conteúdo. Esta arte romântica produz obras poderosas, na pintura, música, mas sobretudo no domínio da criação literária e poética: Dante, Cervantes, Shakespeare até Goethe e Schiller.

            "Modestamente", Hegel considera que a espiritualidade atinge seu apogeu com sua própria filosofia. Seu sistema, onde se exprime ao mais alto ponto a significação filosófica por excelência, coincide com o fim da arte romântica.

            Veremos mais tarde, em relação ao tema do fim da arte, quais conseqüências devemos tirar disto. Mas assinalemos logo algumas anomalias na classificação de Hegel.


AS DIFICULDADES DO SISTEMA

 

            Duas coisas são a notar nesta periodização:

            - se todas as artes estão, evidentemente, presentes simultaneamente em qualquer época, cada momento possui sua arte privilegiada: arquitetura (arte simbólica), escultura (arte clássica), pintura, música, poesia (arte romântica);

            - cronologicamente, todas estas formas particulares traduzem uma espiritualização progressiva: de início, a forma bruta, a matéria (arquitetura); no fim, o espírito puro, inte- riorizado, e a dominação absoluta da matéria (poesia).

            Questão: estas cinco artes, arquitetura, escultura, pintura, música, poesia - formas individuais[8] e diferenciadas do Ideal que se realiza em cada obra -, estariam submetidas ao mesmo progresso do espírito sobre a matéria? Seguramente: "Assim como as formas da arte particulares, consideradas como uma totalidade, apresentam uma progressão, uma evolução do simbólico para o clássico e o romântico, cada arte, considerada à parte, apresenta uma evolução análoga, pois é às artes particulares que as formas da arte devem sua existência."

            Uma primeira dificuldade concerne o agenciamento da Estética; todo leitor da obra pode perceber. De fato, o estudo das formas individuais, quer dizer, das cinco artes que constituem o "mundo real da arte", intervém na primeira parte do terceiro e último tomo do curso. Mas cada arte está presente à título de exemplo no tomo II consagrado às formas particulares. Para saber o que diz realmente Hegel a propósito de uma arte específica, por exemplo sobre a arquitetura ou a poesia, é preciso então "navegar" de um tomo a outro para reconstituir a totalidade da proposta.

            Uma segunda dificuldade salta aos olhos: consiste em querer estabelecer uma correspondência entre três idades e cinco artes, das quais três só para a arte romântica. A questão parece secundária. Mas tal imbricação perturba um pouco a noção de arte privile-giada, representativa de cada idade.

            Exemplo: a escultura grega encarna o ideal clássico ao mais alto ponto; constitui um modelo inimitável e inegável. Entre os esculturores gregos, pode-se contar Fídias. Mas é ao próprio Fídias, assistido por Ictinos e Callicrates, que Atenas confiou o projeto do Panteon, logo de um monumento arquitetural. Ora, a arquitetura, especialmente a pirâmide, é a arte representativa da arte simbólica. Fídias, escultor genial, seria um arquiteto medíocre? Não é evidentemente o que quer dizer Hegel. De resto, a arquitetura, arte simbólica por excelência, atinge seu ponto culminante, segundo Hegel, provavelmente sensível aqui ao maravilhamento de Goethe, na catedral gótica. Vê-se então que a evolução de cada arte para uma maior espiritualidade ultrapassa o quadro temporal inicial.

            A última dificuldade que evocaremos concerne a poesia e a música.

            Lembremos o princípio do sistema das artes: arquitetura = matéria inerte, opaca; escultura = matéria e forma, aparência da vida orgânica; pintura = aparência visual em duas dimensões; música = interioridade subjetiva, ligada ao tempo, efêmera; poesia = subjetividade exteriorizada nas palavras.

            Nesta "hierarquia espiritual", a poesia ocupa o mais alto grau. Não se poderia objetar que conserva no entanto um laço tenaz com a matéria da linguagem, com as palavras, com o trabalho da língua, muito mais que a música, arte temporal, fugidia, mais próxima dos "anjos", do divino?

            Mas a coerência de um sistema fundado sobre a necessidade, para a Idéia, de chegar ao Conceito, ao Universal, obriga a dar privilégio à arte que supera sua subjetividade para se exteriorizar no mundo: daí a escolha, muito romântica, da poesia. Para Hegel é a poesia que não tem pátria e não a música. Este estatuto atribuído à poesia não é, no entanto, sem equívoco. E é bastante significativo que ele hesite sobre este assunto, ao ponto de se contradizer.

            Acreditou-se compreender que a poesia era, depois da pintura e da música, a terceira arte romântica. "Terceira" no sentido da dialética hegeliana, significa que a poesia é a síntese das artes plásticas (tese) e da música (antítese) ou, se se preferir, a síntese entre a objetividade e a subjetividade: "Pode-se caracterizar a poesia de modo mais preciso, dizendo que constitui, depois da pintura e música, a terceira arte romântica[9]. Mas, algumas páginas adiante, ele declara que a poesia da arte particular (arte romântica) concerne a todas: "Também não se liga a nenhuma forma de arte, com exclusão das outras, mas é uma arte geral, capaz de moldar e exprimir sob qualquer forma todo conteúdo suscetível de encontrar acesso na imaginação[10]."

            Assim, a poesia seria uma forma de arte ideal, universal, presente em qualquer época, transhistórica, se se pode dizer, na medida em que se impõe com a mesma força através das três formas particulares, simbólica, clássica, romântica. Hegel abstém-se de resolver esta contradição.

            Mas, trata-se, realmente, de uma contradição? Não se trata para Hegel, amigo de Goethe, de Hölderlin e de Schiller, de mostrar que mesmo a arte pela qual confessa a maior admiração, a poesia, é também capaz de desaparecer. Como toda arte, nasce, desenvolve-se e declina. E já que ela encarna ao mesmo tempo a arte romântica e a arte universal, isto significa que a arte romântica, que contribuiu para a dissolução da arte clássica é condenada a perecer. Mas é também a sorte que espera a arte em geral.

 

O FIM DA ARTE

 

            A passagem da Estética dedicada ao fim da arte romântica é de longe o mais inesperado, mesmo se a "Introdução" havia um pouco nos alertado. Este tema intervém, desde o tomo II, na conclusão do estudo das formas particulares, simbólica, clássica, romântica, no momento em que se espera, da parte de Hegel, uma celebração do período contemporâneo.

            Hegel acaba de lembrar que o mundo romântico realizou "uma única obra absoluta": a propagação do cristianismo. Mas, no começo do século XIX, esta tarefa está terminada: "Nem Homéro, nem Sófocles, nem Dante, nem Ariosto, nem Shakespeare não podem ser produzidos pela nossa época; o que foi cantado tão magnificamente, o que foi expresso tão livremente quanto o fizeram estes grandes poetas, o foi de uma vez por todas[11]."

            O mundo mudou e a elevação dos sentimentos preconizada pelo romantismo degenera em formas menores. O romanesco, o humor, a falta de seriedade no tratamentos dos temas correspondem à irupção de uma subjetividade às vezes brilhante mas que, doravante, se preocupa exclusivamente consigo e não mais com o mundo exterior. A arte, segundo Hegel, "cai sob o império do capricho e do humor".

            É bastante estranho constatar, neste momento da Estética, que Hegel toma por alvo um contemporâneo direto. De fato, o representante típico desta degenerescência do espírito romântico não é outro que Jean-Paul, o autor do Curso preparatório de estética, cuja obra é rica desses "jogos de espírito [trocadilhos], desses realces e astúcias" que terminam, afinal, por "cansar o leitor".

            A declaração de dissolução da arte romântica intervém algumas linhas adiante: "Chegamos no fim da arte romântica, no limiar da arte moderna da qual podemos definir a tendência geral pelo fato de que a subjetividade do artista pára de ser dominada pelas condições dadas de tal ou tal conteúdo ou de tal ou tal forma, mas domina a ambos e guarda toda sua liberdade de escolha e de produção[12]."Para compreender bem o sentido desta reflexão, às vezes, objeto de malentendidos, importa situar no projeto de conjunto da estética e da filosofia hegelianas.

            O emprego de termos pejorativos para caracterizar a situação da época não deve enganar sobre a intenção do filósofo. Hegel fala de fato de "decadência", de "degeneres-cência" e de "dissolução" da arte da sua época. Uma certa nostalgia é então inegável. Mas não é o sentimento dominante. Precisa de fato: "Só o presente existe em todo seu frescor, o resto está descolorido e murcho."

            Na realidade, Hegel nos conduz para onde pretendia nos levar desde a "Introdução": o fim da arte romântica coincide com o fim da arte e só se pode apreender o sentido destes desaparecimentos retornando ao famoso tema enunciado desde as primeiras páginas, o da "morte" da arte. O que ele diz precisamente? Nada além disto:

            "Na hierarquia dos meios que servem para exprimir o absoluto, a religião e a cultura, filhas da razão, ocupam o grau mais elevado, bem superior ao da arte.

            "A obra de arte é então incapaz de satisfazer nossa necessidade última de Absoluto. Hoje, não se venera mais uma obra de arte, e nossa atitude em relação às criações da arte é muito mais fria e intelectual [...] Respeitamos a arte, a admiramos; apenas não vemos mais nela alguma coisa que não poderia ser ultrapassada, a manifestação íntima do Absoluto; a submetemos à análise de nosso pensamento, e isto, não com a intenção de provocar a criação das obras de arte novas, mas bem mais com o objetivo de reconhecer a função da arte e seu lugar no todo de nossa vida.

            "Os belos dias da arte grega e da idade de ouro da Alta Idade Média acabaram. As condições gerais do tempo presente não são nada favoráveis para a arte [...] Com todas estas relações, a arte fica para nós, quanto ao seu supremo destino, como coisa do passado. Por isto, ela perdeu, para nós, o que tinha de autenticamente verdadeiro e vivo, sua realidade e sua necessidade de outrora, e encontra-se, doravante, relegada na nossa representação. O que uma obra de arte suscita hoje em nós, é, ao mesmo tempo que um gozo direto, um julgamento tanto sobre o conteúdo quanto sobre os meios de expressão e sobre o grau de adequação da expressão ao conteúdo."

            Autorizamo-nos, de modo inabitual, esta longa citação - hoje ainda a mais comentada - afim de dissipar qualquer risco de interpretação errônea, fantasista e, às vezes, francamente caricatural.

            Várias ressalvas impõem-se.

            1) Hegel lembra que a arte serve para exprimir o absoluto. Mas o conhecimento que nos dá está bem inferior ao da religião e da filosofia. Quando atinge seu grau supremo de espiritualização e de subjetivação - na arte romântica especialmente - desaparece enquanto arte, criador de obras, para ceder lugar à filosofia. Esta filosofia (da arte) tem por tarefa refletir sobre o papel que a arte representa, doravante, em nossa vida cotidiana e na sociedade. Hegel não diz que a arte está morta, nem que os artistas desapareceram, mas que ela deixou de representar o que significava para as civilizações anteriores. É preciso então ler a arte permanece para nós - na imagem que nos transmitiu os Gregos, por exemplo - algo de passado.

            2) Notar-se-á que as "condições gerais do tempo presente", o mundo "agitado", alusões ao contexto político, social e econômico, pouco favoráveis a um clima cultural e artístico sereno, tanto no exterior da Alemanha quanto no Estado prussiano, autoritário e burocrático. Esta época é crepuscular, opaca, marcada pela industrialização, o nascimento da economia capitalista, a subjugação do indivíduo às instituições. O próprio sujeito não é mais que o indivíduo dilacerado pela divisão do trabalho, submetido à pauperização e à mecanização das tarefas. As descrições do universo desumanizado - que citamos aqui a partir de outras obras - são ainda mais realistas e sinistras que as de Schiller.

            3) O fim da arte e a dissolução da arte romântica coincidem com o término do sistema filosófico hegeliano que seu autor assimila à própria filosofia. Tudo o que é dito da estética, e que figura no curso, concerne a arte do passado, a despeito da filosofia que se encontra bem inteira, desde suas origens até o século XIX, contida na filosofia hegeliana. Mas apenas reter esta ambição desmedida de Hegel, muitas vezes denunciada, é um contra-senso. O verdadeiro sentido da filosofia e da estética hegelianas está contido na dialética que está no próprio coração do seu sistema.



[1] In: L'Autonomie esthétique, Du Criticisme au romantisme, p. 181

sobre G.W.F. Hegel: Introduction à l'Esthétique, Aubier, Paris, 1964.

 

Tradução de Mirian Magda Giannella

[2] G.W.F.Hegel, Esthétique, op. cit., t.I, p. 8.

[3] Ibid.

[4] Ibid., t.I, p. 34.

[5] Ibid., p. 77.

[6] Ibid., t.II, p. 65.

[7] Ibid., p. 67.

[8] Não cocnfundir as formas particulares correspondendo às idades simbólica, clássica e romântica, e as formas individuais designando as cinco artes, aquitetura, escultura, pintura, música, poesia.

[9] Esthétique, op.cit., t.III, 2ª parte, p.9.

[10] Ibid., p. 15-16.

[11] Ibid., t.II, p. 340.

[12] Ibid., p. 335. Sublinhado por nós.